Idioma alemão

O que aprendi estudando alemão. Um desabafo

Agora, em abril, fez um ano que comecei a aprender alemão. Ontem mesmo, o Facebook me lembrou que, nessa mesma época de 2016, postei uma foto com meu material prontinho para o primeiro dia de aula na escola. Eu estava animada pra começar a aprender o idioma e, ao mesmo tempo, sentia um medinho, uma apreensão pelo que vinha à frente.

Nunca tive contato com alemão antes. Vim pra cá conhecendo nada mais do que expressões soltas e, especialmente, sabendo que o desafio seria grande; tão grande e assustador quanto algumas palavras da língua iam se apresentando pra mim: “Entschuldigung”, “Gebrauchsanweisung”, “Krankenversicherung” e assim por diante…

Então, lembro de ir pra escola, duvidando de que aquilo daria mesmo certo: “como é que a professora e nós, alunos de todos os cantos do mundo, que não falam uma palavra de alemão, vamos nos entender?”.

Olha, até hoje eu não sei como, mas, sim, a gente se entendeu. E foi MUITO divertido, especialmente nos primeiros dias. Eram gestos, repetições, imagens, construções monossilábicas e nada de inglês. Aliás, só éramos autorizados a falar alguma coisa em outro idioma quando todas as tentativas de se fazer entender em alemão haviam fracassado diversas vezes. Afinal, para alguns alunos na sala, o alemão era o primeiro contato com uma língua estrangeira.

E foi assim, dia após dia, curso após curso, que essa língua foi tomando minha mente, com seus três gêneros diferentes (masculino, feminino e neutro: “der, die, das”), com sua (praticamente) ausência de regras para as formas de plural (haja criatividade e memória, minha gente!), com suas quatro declinações (nominativo, acusativo, dativo e genitivo… Oi?!) e sua estrutura completamente bizarra, em que verbos podem ser divididos no meio, sem dó nem piedade, jogando a primeira parte dessa separação lá pro fim da frase, não fazendo o menor sentido pra quem vê esse “fenômeno” pela primeira vez (ou pela segunda, terceira, milésima vez).

Mas, sabe, muito mais do que tomar minha mente, esse estudo e essas regras gramaticais que me levam pronunciar palavras e frases de um jeito diferente começaram a cutucar meus sentimentos.

Gente, aprender alemão não é fácil. Não é mesmo. Essa língua arranca lágrimas e sanidade da gente. Ela nos atravessa, ela nos desanima, nos confunde. Mas, principalmente, ela humilha ao privar o novo falante de colocar pra fora todo o sentimento que vai guardando aqui e ali, até chegar uma hora que o que mais se quer fazer é jogar tudo pro alto e mandar se *&%$# (em português, claro)…

Mas calma… É melhor ir com calma, especialmente você, que está lendo aqui por se interessar pela Alemanha e seu idioma. Calma é uma das principais lições que tenho aprendido enquanto estudo alemão, pois essa língua a gente não aprende como quer, mas do jeito que ela quer: DE-VA-GAR. E nem pense em pular etapa.

aprender_alemão_deboas

Nessa toada lenta e, tantas vezes, irritante, há tempo de sobra pra gente refletir no que está fazendo, em como está fazendo, no por que está fazendo. Por isso, nesse ano de estudo, tenho concluído (ou mesmo só me questionado) algumas coisas que quero compartilhar aqui. Tomara que eu me lembre, pelo menos, da maioria delas:

  • “Ser fluente em um idioma” é algo bastante relativo

Tenho facilidade com idiomas. Já tive a oportunidade de estudar algumas línguas estrangeiras e termos gramaticais não me assustam. Porém, nenhuma língua foi capaz de atar um nó tão grande na minha cabeça (um nó que desce pra garganta e que custa pra desatar) como o alemão.

Eu vim pra Alemanha com uma ilusão: achei que, por morar aqui, estudar intensivamente e contar ainda com a minha facilidade para aprender, estaria “fluente” alemão em questão de meses. Um ano, pra ser mais boazinha comigo mesma.

Mas, gente, conforme o tempo foi passando, percebi que essa meta era descontextualizada e estava colocando em risco a minha autoestima. Então, pra manter a sanidade, de duas uma: ou eu teria que flexibilizar e aumentar esse tempo, o que provavelmente só adiaria minha frustração, ou eu teria que rever esse negócio de “estar falando alemão”, redefinindo meu jeito de me entender como falante desse idioma. Afinal, o que é fluência?

Fluência, gente, depende de referência. Em português mesmo, há várias situações em que eu não sou uma falante fluente: se me der um livro de engenharia elétrica, área do meu marido, mesmo que eu conheça e domine todas as regras gramaticais empregadas construções de cada frase, é bem provável que eu não entenda o que está escrito.

Então, por que sofrer tanto com aquele alemão que eu ainda não aprendi? Bom, pra falar a verdade, essa pergunta eu só respondi na teoria. Difícil é colocar em prática…

  • “Aprender alemão” e “falar alemão” são coisas diferentes

O problema em aprender alemão, pra gente que fala português do Brasil, é que essa nova cultura e o jeito de pensar são tão distantes dos nossos que, antes de aprender a falar, é preciso aprender a raciocinar em alemão.

Se eu fosse desenhar a impressão que tenho sobre essa diversidade, eu representaria o idioma português com bolas e o alemão com quadrados, pois quando a gente, que pensa “redondin”, tenta encaixar um círculo nesse quadrado pontudo, não entra. Da mesma forma, quando a gente aprende palavras ou itens gramaticais em sala de aula, muitas vezes não consegue sair e falar com as pessoas na rua, pois os raciocínios não casam.

Pra resolver esse impasse, meu amigo, só com tempo. É ele que faz com que todo o esforço que a gente faz na hora de aprender alemão se transformem em fala e coloca pontas nos nossos círculos até formar os quadrados (ou retângulos, pentágonos…).

Ah! Só mais uma coisa: esse processo todo aí dá dor de cabeça, viu? E não estou mais falando no sentido figurado…

  • “Falar alemão” e “se expressar em alemão” são coisas mais diferentes ainda!

Você pode dizer que superou o tópico anterior quando já aprendeu a teoria e, com esforço e tempo, conseguiu aplicá-la na sua fala. Mas aí, meu caro, vem a parte 2 desse mesmo impasse:

Você domina as regras, conhece o vocabulário, fala tudo direitinho, mas a sensação que tem é que da sua boca saem apenas aglomerados de palavras grandes e com poucas vogais pra descansar a língua. Cadê os sentimentos? E expressão, meu Deus do céu? Parece que o cérebro da gente faz um esforço tão absurdo pra cumprir os requisitos da língua, que não sobra fôlego para o que o coração tem a dizer.

Sem dúvida, essa pra mim é a parte mais complicada de lidar. Eu já sei alemão suficiente para contar a meus novos amigos alemães sobre mim, minha família, meus sonhos e meus objetivos, sobre o que eu gosto, o que eu não gosto e ainda explicar com detalhes cada argumento. Mesmo assim, não parece que estou falando de mim mesma ou das minhas próprias ideias. Eu não pareço comigo mesma quando estou falando alemão! E eu não gosto muito ainda de quem eu sou quando falo esse idioma…

  • Minha cabeça é pequena para tanta palavra nova

Tem hora que não cabe mais nada! Não sei se é porque as palavras são grandes ou se são diferentes demais do português, mas, às vezes, é muito chato aprender vocabulário em alemão. Eu estudo um assunto hoje, escrevo e repito dezenas de vezes a mesma palavra e, amanhã, já esqueci o que significa ou como é que se fala.

Agora que já aprendi a base gramatical da língua e seus mecanismos, esse tem sido meu mais novo desafio. E já percebi que também tem sido o maior desafio dos meus colegas no nível B1 e B2 (pelo menos não tô sozinha nessa…).

E aí eu lembro, outra vez, que é DE-VA-GAR, Lissa. Não adianta tentar correr. Então, se eu aprendo (e gravo) pelo menos uma palavra nova por dia, já estou no lucro. Mas se não gravar nenhuma, está tudo bem também. Amanhã eu aprendo (talvez).

  • Orgulhinho que faz valer a pena

Ah, gente… Eu desabafei tudo isso aqui, mas a verdade é que não tem só coisa ruim nesse negócio de falar alemão. É MUITO LEGAL aprender algo difícil pra caramba e que desanima tanta gente, deixar as dúvidas pra trás e revirar os neurônios pra enxergar o mundo através de uma nova perspectiva. É uma delícia dizer pra si mesmo “Aôôô! Mandou bem, agora, hein?! Tá podendo!”.

Esse orgulhinho faz mesmo valer a pena e serve de combustível especialmente para aqueles dias mais difíceis. Como dizem por aí, “quanto maior o desafio, maior a recompensa”.

Pra terminar, uma diquinha (preciosa)

Se você está lendo meu texto porque aprende alemão, tenho uma dica bacaninha pra te dar. É o livro “Losing My Voice and Finding Another“, do autor americano Cooper Thompson, que narra como foi o processo de aprender alemão após se casar com uma alemã e se mudar para a Alemanha. Clique aqui para acessar o site de compra e download do e-book.

Esse livro marcou meus estudos e todo meu processo de adaptação aqui na Alemanha, pois detalha exatamente tudo o que senti de bom e ruim com essa nova jornada e com meu aprendizado na língua. E eu ainda tive a oportunidade de conhecer o Cooper pessoalmente e agradecê-lo pelo maravilhoso trabalho que ele realizou ao escrever esse conteúdo. Ele é uma pessoa sensacional!

O livro está em inglês, mas a linguagem é simples e bem fácil de entender!

Bom, por enquanto, é isso. Fico por aqui, só imaginando em como vou estar daqui um ano! O que será que vem pela frente? 🙂

imaginação

 

 

 

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13 comentários em “O que aprendi estudando alemão. Um desabafo

  1. Coitadinhos dos meus netos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Mas quando vocês tiverem dominado o idioma, vão se sentir com mais fibra para enfrentar as dificuldades. Para confortá-los só posso enviar beijos, muitos beijos e muitos abraços e dizer que vocês são ma-ra-vi-lho-sos!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ô, vó! Não se preocupe, não! Eu sempre acabo exagerando no drama! Kkkk! Aprender alemão é difícil, mas também é divertido! E Deus tem cuidado de nós! Obrigada pelo carinho e pelo comentário! Estamos com muita saudade!

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  2. Aeee Lissa! Difícil é pouco e para poucos! Fiz 4 anos e se perguntarem se eu falo respondo de pronto: não!!!ahahah mas me comunico o que é muito interessante também. Força e foco, se até criancinhas aprendem porque não nós? Parabéns minha linda e aproveite muito sua estadia nesse lindo país. Bjos saudades.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Muito bom Lissa ! Vc e muito clara e domina as palavras para se expressar ! Delicia ler seu texto continue firme ! Comecei a estudar alemão há 3 meses e fiz uma meta de aprender o básico em 10 anos assim terei bastante tempo para ir com calma Não e fácil mas a felicidade de aprender coisas novas nos impulsiona . Deus abençoe Lissa continue firme !!

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  4. Lissa , eu adoro ler seus textos e confesso, dou muita risada, você é bem divertida prá escrever, mas fiquei curiosa…o Tiago estuda com você? Vocês treinam em casa? Ele já está melhor que você? Boa sorte…e não desanime!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Meg! Puxa, desculpe pela demora em responder aqui.
      O Tiago não estuda comigo, não. Ele tem uma rotina bem diferente da minha. Enquanto ele trabalha, eu vou à escola… Mas ele faz aulas duas vezes por semana à noite.
      Em casa não falamos quase nada de alemão, nem pra praticar. Só às vezes tiramos uma dúvida ou outra, mas nosso idioma oficial é e sempre vai ser o português! hahaha! É que chegamos em casa tão cansados de ouvir alemão que fazemos questão de desligar esse idioma e curtir nosso próprio idioma.
      Beijos!!!

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  5. Olá Lissa, te acompanho pelo Instagram, e me mudei de SP para Dusseldorf, e em junho começo a estudar alemão, A1 pois não sei nadinha tbm…
    O que você relatou é algo que já pensei, (aprender alemão não é fácil) mas vamos lá.
    Parabéns e tenho certeza que estará supimpa no alemão até o ano que vem.

    Att.
    Chris

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    1. Oi, Chris! Puxa, espero que me perdoe a demora em responder seu comentário!
      E espero que esteja tudo bem com você nesses meses de adaptação. Seu curso de alemão deve estar para começar, né? Que bacana! Desejo tudo de bom pra você aqui na Alemanha e também com o aprendizado do idioma. Se precisar de alguma coisa, tamo por aqui!
      Beijoca!

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