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Desencanei: a (longa) história de como comecei a trabalhar na Alemanha

Tá com tempo e vontade de ler? Porque já aviso que a história é longa… Rs!

Há uns dias, escrevi um post para contar sobre meu trabalho voluntário em um asilo na Alemanha. Hoje, vou contar outra novidade para vocês: também comecei a trabalhar recentemente em uma loja bem bacana por aqui.

Olha… Já fazia tempo que eu pensava nessa possibilidade de trabalhar em algum lugar e dar uma agitada a mais na minha rotina. Só que eu não estava conseguindo dar esse passinho de jeito nenhum.

Sei lá, viu… Sentia certo desconforto só de pensar na hipótese de um emprego; era um medo pequeno, mas meio paralisante.

“Mas medo de quê, Lissa?”, você pode estar se perguntando. “Medo de falar alemão?” Talvez, mas não só. “Medo de assumir responsabilidades?” Hm… Pode até ser. “Medo de viver uma experiência ruim no trabalho?” É… Tinha isso, sim… “Medo de perder a sensação de controle das coisas?” É, pensando bem, meus pensamentos iam para esse lado também…

É aquela coisa que eu já descrevi no blog diversas vezes: mudar pra Alemanha fez com que minha vida virasse de cabeça pra baixo; e nem preciso enumerar outra vez o tanto de coisas que mudaram junto com o endereço em um novo país, né?

Então, acho que o único lugar que eu comecei a me sentir realmente confortável era em casa, onde sei que, de alguma forma, domino as coisas e, por isso, podia estar confiante comigo mesma, dona das minhas ideias e cheia de autonomia com minha própria personalidade.

Já quando estava lá fora, tinha bastante dificuldade me sentir eu mesma, sabe? Não só por causa do idioma, que limita bastante a expressividade das minhas palavras, mas por saber que a Alemanha não é, assim, o local ao qual eu realmente pertenço.

E foram vários e vários meses trabalhando essas questões, entendendo esse medo e a forma como ele me afetava.

Só que não era apenas o medo que me impedia de dar um passinho em direção a um trabalho. Eu sentia também que, mais do que minha própria vontade, era por certa pressão externa que eu “tinha que arranjar um emprego”.

Nunca ouvi essas palavras diretamente de alguém, “você tem que trabalhar”. E especialmente do Tiago, da família e dos amigos mais chegados, eu só ouvia que era importante fazer tudo sem pressa e no meu ritmo.

Mas não adianta, essa pressão estava lá e eu sentia uma angústia forte toda vez que conhecia alguém diferente e tinha que responder a pergunta: “e aí? o que você faz da vida?” Acho essa pergunta um saco, pois parece que somos definidos pelo nosso trabalho, mais do que por qualquer outra coisa com a qual realmente nos identificamos.

Os currículos rejeitados

Tá… Aí, em uma tentativa de acabar com essa angústia toda, ano passado, quando eu já estava me preparando para fazer a prova de proficiência do nível B2, traduzi meu currículo para o alemão e escrevi uma carta de motivação para enviar a algumas lojas com as quais eu me identificava.

E, veja bem, eu nunca tinha pensado em trabalhar em lojas na vida. Se eu estivesse morando no Brasil, talvez nunca escolhesse trabalhar com isso. Nunca antes me vi do lado de lá do balcão e também nunca tive muita facilidade com dinheiro, trocos e contas rápidas.

Mas, na Alemanha, esse foi o caminho que mais fazia sentido pra mim. Afinal, eu não quero e nem me sinto preparada ainda para trabalhar em alemão com minha antiga profissão de assessora de comunicação e produtora/revisora textual. E também não quero passar a maior parte do tempo em frente a um computador, quando tenho um país novo inteiro lá fora pra eu conhecer e me comunicar.

Então escolhi três lojas de decoração. Pensei nesse ramo, pois acho que é um lugar onde as pessoas vão mais felizes fazer suas compras: geralmente, procuram algo bonito para suas casas ou querem encontrar um presente perfeito pra um amigo.

Mandei os currículos e recebi três respostas negativas. Duas delas, explicando que, naquele momento, não estavam precisando de novos colaboradores. Mas a terceira… Ai, gente, a terceira resposta foi péssima e me puxou ainda mais pra baixo no buraco: “Infelizmente, não podemos contratá-la, pois recebemos outros currículos de pessoas mais bem preparadas do que você”.

Oi? Como assim? Que resposta mais horrorosa é essa? Cadê o tato desse povo de RH, meu Deus?

Bom, sei lá… Pode ser que, para um alemão, esse retorno nem tenha sido tão negativo assim. E pode ser também que essa seja uma resposta padrão (mal elaborada) para a negação de currículos naquela empresa. O que importa é que nunca mais eu vou pisar nessa loja – hahaha!

Outra coisa que eu tenho que admitir é o que disse pra mim mesma quando vi que nenhuma das três tentativas havia dado certo: “que pena, mas que bom que não foi dessa vez”.

Conhecendo a loja mais linda do mundo

Deixei o tempo passar e me refrescar as ideias: comprei uma câmera fotográfica, pesquisei uns cursos de fotografia e me joguei na história de aprender a capturar imagens lindas.

Também comecei a tocar outra vontade enorme que eu tinha de fazer um Podcast para falar sobre língua alemã – ainda não escrevi sobre isso no blog, mas você pode conferir o programa aqui.

E fiz uma viagem para visitar uma amiga muito querida em Kassel, mais ao centro da Alemanha. Durante os dias maravilhosos com ela, fomos bater perna no centro para eu conhecer as lojas legais da sua cidade.

Uma, especificamente, me chamou muito a atenção: era absurdamente linda, organizada, cheia de produtos estilosos de papelaria, decoração, artigos de cozinha… Uma coisa mais incrível que a outra. Me encantei de primeira.

Voltando pra Nuremberg, fui tentar pesquisar onde havia uma filial aqui por perto e descobri que, infelizmente, não havia nenhuma aqui na cidade, mas apenas em um dos municípios vizinhos.

Achei uma pena, pois eu já queria ter vários daqueles produtos lindos enfeitando minha casa. Veja bem, inicialmente eu queria COMPRAR coisas, e não tinha pensado ainda em trabalhar lá! Rs!

Entrevista a jato

Comecei a seguir a loja nas redes sociais e, para a minha surpresa, em breve teriam uma filial em Nuremberg! \o/ E, para uma surpresa maior ainda, estavam contratando pessoas para as mais diversas atividades.

Gente, eu nem pensei duas vezes. No supetão, catei o currículo rejeitado, modifiquei a carta de motivação, escolhi uma das vagas com menos horas de trabalho e mandei tudo. Não pus nem fé que daria certo e nem criei expectativa. Até esqueci de contar pro Tiago, no dia, que havia me candidatado outra vez.

Pronto: duas semanas depois, recebi um convite para uma entrevista. E fui. Nem me preparei direito, mas fui. Não estava nervosa, mas me animei ao encarar o convite como uma forma diferente de praticar meu alemão em uma experiência nova pra mim na Alemanha.

Só que nem deu pra falar muito alemão com o cara que me entrevistou, não. É que a nossa conversa foi tão rápida, que não deu nem tempo! Rs! Acompanhe:

“Oi, Lissa… Qual é a vaga que você se interessou?”

“Essa de ajudante.”

“E você sabe o que você terá que fazer como ajudante na loja?”

“Bem, provavelmente terei que ajudar em todas as tarefas importantes, como repor produtos, manter o ambiente organizado e auxiliar no caixa.”

“Isso mesmo. E você está trabalhando atualmente? Como é sua semana?”

“Não estou trabalhando e possuo uma agenda bem flexível. No momento, tenho um trabalho voluntário, um Podcast e estudo um pouco de fotografia.”

“Ótimo. E quando você pode começar a trabalhar?”

“Agora!”

“Legal! Bem-vinda ao nosso time!”

O quê? Jura? Já? Assim? Você não vai nem perguntar mais nada sobre mim ou fazer aquelas perguntas clichês de RH?Nessa hora, sim, eu fiquei nervosa, gente. E duvidosa: será mesmo que era verdade?

A prova de que a entrevista havia mesmo sido bem sucedida veio dois dias depois, quando o contrato chegou na minha caixa de correio.

Li, mandei minhas dúvidas por e-mail, recebi resposta, assinei e… Já comecei a trabalhar no dia 16 de setembro. 😀

Primeiras impressões

Gente, eu estou amando trabalhar lá. Sei que ainda é pouco tempo pra saber se o trabalho vai mesmo ser legal, se todo mundo do time é realmente bacana, se o ambiente da loja é tão positivo quanto parece. Mas, por enquanto, é só alegria.

No primeiro dia de trabalho, eu não estava nervosa. Mas tive medo quando já me colocaram no caixa logo naquele dia. Eu nem fazia ideia de como era o lado de lá de um caixa em uma loja.

E deu certo. Bem, algumas vezes deu errado, e tudo o que eu tinha que fazer era pedir ajuda: produto sem preço, produto com preço errado, cliente querendo trocar uma peça comprada anteriormente… Enfim, eu não sabia lidar com várias situações, mas aprendi o que fazer em muitas delas ao pedir ajuda.

Aliás, as colegas de trabalho têm sido bem solícitas comigo. Uma delas, inclusive, também é professora de alemão, e já trocamos nossos contatos, é claro.

Até agora, os clientes também são geralmente bastante compreensivos e se mostram pacientes comigo quando, especialmente no fim do expediente, eu já estou cansada, e a cabeça começa a querer falhar no alemão. Uns dão até risada quando veem que eu preciso fazer um esforço extra para conseguir falar o valor da compra – afinal, em alemão os números são ditos ao contrário do que em português, primeiro a unidade e depois a dezena.

E, sim, estou dando é muito conta desse trabalho! Tem hora que vem até aquele sentimento bom de que sou realmente boa para aquilo que estou fazendo – e um sentimento de pena pela loja que me rejeitou. Kkk!

Talvez, se eu soubesse que me sentiria tão bem trabalhando em uma loja, já tivesse procurando pelo emprego antes. Ou talvez não, pois no fundo eu sabia que seria algo bom pra mim, mas precisei de todo aquele tempo pra amadurecer a ideia e amadurecer a minha própria confiança abalada.

Ah! É claro que eu sei que vai chegar o dia em que as coisas vão dar errado, que vou pegar cliente chato falando o que não deve, que vou falhar em algo importante… Mas essas coisas acontecem o tempo todo, em todos os lugares e fazem parte do processo de dar certo também. Então, paciência.

Ou melhor: tomara que nesse dia eu me lembre de ter paciência.

9 comentários em “Desencanei: a (longa) história de como comecei a trabalhar na Alemanha

  1. Muito legal a história! Super me identifico quando você fala da “pressão externa” em começar a trabalhar e também naquele medinho de dar o passo inicial. Vai firme, pela descrição da loja eu provavelmente vou passar por lá e quem sabe esbarro com você hehe. Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Uau! Amei o texto e a experiência compartilhada…me identifiquei muito. Principalmente com a parte sobre se sentir confortável dentro de casa e não se sentir “a vontade” no mundo “externo”. Obrigada por dividir essa experiência com a gente, definitivamente é muito importante ler textos como esses, textos da vida real. E parabéns por vencer mais um obstáculo, admiro muito você!

    Curtido por 1 pessoa

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