Dia a dia

Eu vim na janela!

A seguir, um textão grandão sobre uma pequena conquista especial que 2019 me deu:

Eu já disse em alguns posts que tenho/tinha medo de voar de avião. Não vou dizer que “tinha” medo com todas as letras, pois ainda não é dentro de uma aeronave o local onde eu me sinto mais confortável. Mas também não consigo mais dizer que ainda “tenho” medo, pois ele não é mais o mesmo de antes.

Desde criança, sempre tive uma admiração enorme por essas máquinas tão maravilhosas. Ia ao aeroporto de Rio Preto com minha família só pra ver pousos e decolagens e tinha até um aviãozinho de brinquedo que girava as hélices a bateria, feito pelo meu pai. E principalmente: desde criança eu não via a hora de poder voar em um avião de verdade! Ai como eu queria, meu Deus!

O tempo passou e infelizmente a oportunidade de voar não veio tão cedo. O que chegou antes, na verdade, foi um monte de reportagens sobre tristes acidentes aéreos ocorridos ao longo da minha infância: Mamonas Assassinas, Fokker 100 e tantos outros. Acredito que a abordagem sensacionalista e muitas vezes equivocada dessas tragédias foi dominando meu inconsciente e criando um medo, um tremor, que agora dividia um espaço dentro de mim que antes era apenas o da admiração e do encanto.

Depois que completei 22 anos, as viagens de avião finalmente apareceram na minha vida. Na primeira, eu fui sozinha: era o intercâmbio para a França, uma viagem internacional de 12 horas. Senti medo, mas fui e voltei feliz. Depois dessa, vieram muitas outras, curtas, longas, dentro e fora do Brasil. Em todas elas, os mesmos incômodos: ansiedade de tirar o sono, coração acelerado, mãos suadas e cada vez mais desconfortos. Quando nos mudamos para a Alemanha, por exemplo, eu senti mais medo da viagem que faria sozinha até aqui do que do desconhecido país aonde viria morar.

Com todos esses voos, ao invés de o medo dar lugar ao fato de eu estar cada vez mais acostumada a viajar de avião, cada passagem comprada me trazia dois sentimentos completamente opostos: um agonizante, antes de cada partida; e outro de euforia a cada chegada. Era como ir do zero ao um milhão tanto na escala do pavor quanto na da excitação, uma montanha russa de sensações que me tirava a calma e quase o juízo.

“Chega! Cansei. Não aguento mais sentir tudo isso”, eu disse a mim mesma em 2017, depois de um voo pra Sicília, em que as turbulências severas só aconteceram dentro de mim.

Desarrumadas as malas, pensei em procurar vídeos de aviões pousando e decolando, já que era isso o que eu gostava de ver com a minha família quando era criança.

Achei vários vídeos lindos. Mas muito melhor do que todos eles foi o canal do Lito Souza, “Aviões e Músicas”.

Maratonei todos os vídeos e vi muita coisa legal sobre aquelas máquinas gigantes que pareciam desafiar a física ao sair do chão. Aprendi, inclusive, que por causa da física, é do céu que os aviões realmente gostam, que é lá onde preferem estar.

Aprendi como voam, por que voam, como funcionam suas peças e as rotinas dos tripulantes e nos aeroportos. Aprendi que é “motor” e não “turbina” e também o que eram cada um daqueles barulhos estranhos que me amedrontavam.

Abri os olhos para o desserviço da maioria das reportagens sobre imprevistos aéreos, como o famoso “pânico geral entre os passageiros” em um procedimento normal de arremetida.

E mesmo com toda essa informação disponível, ainda havia uma coisa que eu não conseguia fazer por causa do medo: sentar na poltrona da janelinha e acompanhar o voo pelo melhor ângulo. Era como estar na fila de um brinquedo radical de um parque de diversões, mas amarelar bem na hora em que chega a sua vez.

Mas esse foi o ano em que consegui dar esse pequeno passo! Programamos uma viagem daqui para Portugal, e já avisei o Tiago: a poltrona da janela dessa vez vai ser minha!

Dormi bem na noite anterior ao voo. Também fui tranquila ao aeroporto. Vi nosso avião chegar e, de longe, acompanhei a vistoria que os mecânicos realizam a cada pouso. Entramos no avião e, com frio na barriga, ignorei o medo e pensei: vai ser divertido!

Na verdade, foi muito mais que divertido!! Não desgrudei nem um minuto da janela e só não consegui enxergar melhor a paisagem lá de cima, porque meus olhos por várias vezes ficaram cheios de lágrima, tamanha a emoção que eu estava sentindo.

Lá em Portugal, eu não parava de repetir: “Eu vim na janela! Eu vim na janela! EEEEUUUUU VVIIIMMM NNNAAA JJJAAANNEEEELLAAAA!”

E fiz a mesma coisa na volta! Hehe! 🙂

Por que estou contanto tudo isso? Ah… Porque 2019 está quase acabando e, parando pra pensar em todas as coisas legais que aconteceram comigo este ano, acho que ir na janela é uma das mais representativas.

A gente sonha com grandes conquistas, mas acho que não podemos perder de vista os pequenos passos em nossa caminhada. E quase todos os dias a gente pode conquistar algo pequenininho em nós.

Se a gente parar pra pensar bem, a vida é tão curta que não existe pequeno passo nesse caminho. Cada passo conta e todos eles, os grandes e os pequenos, nos levam pro mesmo fim. Então, melhor aproveitar o caminho, especialmente quando a vista para ele é da janelinha do avião.

Até 2020! Feliz ano novo!

3 comentários em “Eu vim na janela!

  1. Parabéns pelo texto. Apenas como comentário, comecei a frequentar o Aeroclube de Araras com 16 anos de idade. Pilotava com os amigos, sendo que alguns pilotam nuvens como o Com.Pavãozinho (Antonio Manoel Mantoan) e o Luizinho Magrini. Da safra nova tenho um grande amigo, o Com. Nelvio que também parou de voar. E, até hoje me perguntam, aliás,a primeira pergunta que me fazem é: “- Você tem medo de voar?”. Invariavelmente respondo: – É claro! Como você acha que vou completar 70 anos em 2020…..
    Feliz Ano Novo repleto de muito sucesso e…viagens…
    Um beijão para voce e para o Thiago do tioTú e tia Tina.

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