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4 anos fora do modo automático

Completo hoje 4 anos de Alemanha. Se passou rápido? Lembro como se fosse ontem o que senti quando pisei neste país pela primeira vez. Mas se eu parar para pensar no tanto que tive que parar para pensar sobre o que eu estava fazendo… Foram 4 longos anos.

É que tem coisas que a gente faz no Brasil e nem se dá conta. Um exemplo bem simples é, sei lá, comprar pão. Não tem que pensar muito pra fazer isso: você vai até a padaria que mais gosta, porque já conhece bem os melhores padeiros da cidade, chega pro atendente, diz apenas o número (e, por gentileza, um por favor), paga e vai embora. E aí volta lá no dia seguinte… De novo e de novo.

Parece simples e intuitivo? Não se engane: morando fora, primeiro, você nem sabe onde ficam as padarias, muito menos as boas. Segundo, quando você acha uma e entra nela, vai ter que lidar com a indecisão, tamanha a variedade de pães disponíveis. Aí, quando finalmente escolhe algum pra levar, tem que arranjar um jeito de explicar seu desejo para o atendente. E, no início, você nem sabe pronunciar “pão” em alemão, ainda menos o “por favor”. Para pagar, então, é a hora de enfrentar números ditos ao contrário.

Se você se achar mais prático, vai me dizer que é só apontar, sorrir e entregar o dinheiro. Verdade, concordo. Só que, morando aqui, em algum momento, você vai ter que lidar com o fato de que, ou aprende como faz, como se diz e como se vive aqui, ou vai ter que se limitar em apontar pra sempre. E acredite: você não vai querer apontar pra sempre.

Muito menos, porque comprar pão é algo bem bobo, mas segue a mesma lógica de coisas mais complexas em um novo país: encontrar amigos, alugar um apartamento, candidatar-se a um emprego, procurar um médico, aprender um idioma, entender burocracias, vestir-se adequadamente em um dia de inverno, reconhecer questões culturais, sentir-se em casa depois de um dia cheio, suportar a saudade de quem está longe, ajeitar o nó na garganta pra demonstrar carinho com quem está perto.

Nada disso é automático morando fora. A gente para e pensa muito antes de executar cada ação do nosso dia. Por causa disso, pode até se sentir estagnado, travado demais.

Mas é mera ilusão. Porque especialmente quando vejo o ritmo da minha vida desacelerar, intensificam-se sentimentos inquietos que, antes, de tão quietos, eu nem sabia que existiam.

E aí, cara a cara com eles, a gente dá passos gigantes no percurso emocional da vida, mesmo dentro de uma carcaça de tartaruga.

Um comentário em “4 anos fora do modo automático

  1. Adorei o comentário… É bem por aí mesmo. Para não parar no tempo e evitar que o velho alemão (O Al Zhaimer) chegue junto comecei a estudar espanhol. Deve ser menos difícil que o alemão, mas mesmo assim, além de ter que conhecer as palavras e pensar na nova língua entra a parte mais difícil (na minha opinião): a pronúncia… Continue a postar e fique com nosso carinho para voce e para o Ti. Beijões dos tios Tú e Tina.

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