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Relato de parto (sim! Virei mãe!)

Caramba… fiquei um ano sem postar nenhum textinho aqui no blog. Ano chato de isolamento por um lado, mas também o da transformação mais maravilhosa que já aconteceu em minha vida: há exatamente 366 dias (do dia em que começo a escrever este texto), o Tiago e eu descobrimos que éramos muito mais do que imaginávamos: uma família de três – ele, a Ana e eu. 🙂

Passados 10 meses de espera

A gestação foi um período (lindo) à parte em minha vida. Mas vou pular os 10 meses (foi tudo isso mesmo) de espera pela Ana e ir direto à história do parto. Ou melhor: à história do parto e a dos dias que antecederam à sua chegada.

Ela nasceu um dia antes de eu completar 42 semanas de gestação, e, por isso, o parto precisou ser induzido. Abrindo um parênteses, durante a gestação toda, jamais imaginei que precisaria induzir a chegada dela. Mas a Ana parece ter gostado de morar dentro de mim, pois estava muito tranquila e não havia dado ainda qualquer sinal de que queria nascer.

Quando completei as 40 semanas, minha médica, depois de verificar que nós duas estávamos bem e saudáveis, assegurou o que eu já sabia: cada bebê tem seu próprio tempo, inclusive para nascer; e, estando tudo bem, não haveria motivos para se preocupar. Eu estava calma, pois, incômodos à parte, amei estar grávida e queria ainda aproveitar cada dia dessa jornada que estava chegando ao fim.

Como, na Alemanha, geralmente não é o ginecologista que acompanha a gestação o médico responsável pelo parto – e, sim, a equipe do hospital escolhido -, minha médica pediu para que os próximos exames fossem feitos, a cada dois dias, no próprio hospital.

E aí, depois de uma semana e meia de muitos CTGs (medição da frequência cardíaca do bebê), entre outros exames, e nada de contrações (nem mesmo as de treinamento), os médicos do hospital começaram a falar em indução e a me explicar tudo o que eu precisava e gostaria de saber sobre o processo.

O hospital escolhido

Nesse momento, preciso fazer uma pausa e falar um pouco sobre o hospital que escolhi para a Ana nascer, o Theresien-Krankenhaus. Em Nürnberg, há três hospitais com maternidade, sendo dois deles bem grandes e com ala pediátrica, e o escolhido por mim, bem menor e sem pediatria. Não preciso nem explicar o motivo de a maioria das pessoas procurarem pelas duas maiores maternidades da cidade, o que faz com que o ambiente hospitalar desses locais seja, por vezes, bem mais agitado do que o hospital menor, mais familiar.

E, além da diferença entre os ambientes, algo que me chamou bastante atenção nesse pequeno hospital era o fato de ele ser o único da cidade certificado como “Babyfreundlich“, ou seja, um local que, segundo uma iniciativa da OMS e da UNICEF, é amigo dos bebês ao proteger e apoiar o vínculo entre pais e bebê, favorecendo o aleitamento materno. Assim, depois de ler bastante e conversar com quem já havia dado à luz nesse hospital, fiquei bem segura com minha escolha.

Uma indução o menos invasiva possível

Bem, não adianta… Induzir o parto sempre será uma intervenção na gestação. Mas existem maneiras lentas e menos invasivas de realizá-la e garantir a segurança e a saúde do bebê e da mãe. Foi exatamente isso que os médicos do hospital me explicaram e propuseram. Segundo eles, ao realizar uma indução mais lenta – acompanhando de perto cada sinal de evolução do processo e a saúde do bebê -, as chances de se ter um parto normal e sem outras intervenções era bem maior do que medicar e induzir em questão de horas.

O plano começaria, então, com minha internação no hospital e a introdução de uma sonda chamada “Balão de Foley” no colo do útero, inflada depois com soro. Esse é um processo não medicamentoso e de colocação bastante simples e indolor, cujo objetivo é estimular contrações e a abertura do colo do útero. Depois de oito horas, a sonda seria retirada, e, havendo contrações, o trabalho de parto poderia engrenar. Caso as dores ainda não começassem, seria administrado um medicamento em uma dosagem bastante baixa, e seguiríamos acompanhando a evolução desse procedimento.

É claro que, por ser algo totalmente desconhecido por mim, fiquei assustada com a ideia no início. Mas, depois de conversar com os médicos e as Hebammen (enfermeiras obstetras) do hospital, me senti segura e até ansiosa para que tudo engrenasse bem.

A pé para a maternidade

Depois de passar uma sexta-feira tranquila ao lado do Tiago, ir para a maternidade não foi nada como eu imaginei durante toda a gestação. Como não temos carro, sempre planejamos a ida ao hospital de taxi – ou até com amigos que estavam sempre nos disponibilizando ajuda. E, claro, sempre pressupus que eu estaria com muita dor, talvez aos berros, com medo até de a Ana nascer no meio do trajeto, bem como a gente vê nos filmes.

Mas a verdade é que fomos a pé para o hospital (e, até hoje, nunca contei esse fato pras nossas famílias! Haha! Eles descobrirão apenas quando lerem este texto aqui… Hehehe). Eu estava me sentindo tão bem e disposta que sugeri ao Tiago que fôssemos caminhando. O trajeto levaria apenas 15 minutos, e essa seria uma maneira gostosa de me despedir dele, já que, infelizmente, ele não poderia ficar internado comigo por causa das novas regras impostas pela pandemia.

O início de tudo

Realmente, não senti dor alguma para colocar a sonda. Rapidinho, depois de fazer um CTG, eu já estava liberada para subir para o quarto e dormir. Porém, mais ou menos uma hora depois, eu comecei a sentir uma dor muito, muito forte e chamei a enfermeira. Voltei ao consultório médico quase sem conseguir andar direito e, para que eu conseguisse permanecer mais tempo com a sonda introduzida em mim, uma Hebamme desinflou um pouco o balão. Ufa… o alívio foi imediato. Ela me explicou que, ainda que o objetivo do método seja estimular dores de contração, era importante que o processo não hiperestimulasse meu corpo, para evitar um trabalho de parto penoso e dolorido além do esperado.

Voltei para o quarto e tentei dormir. Mas, por estar sozinha ali, me senti triste e com saudade do Ti e de casa…

O pior sábado

Na manhã seguinte, logo depois de tomar meu café da manhã, desci para o consultório, e o balão foi retirado. O colo do útero havia aberto cerca de 3 centímetros! Mas eu não estava com nenhuma dor, nenhuma contração. Sendo assim, tomei um comprimido de um remédio para induzir contrações. E, como era a primeira vez que estávamos tentando o método medicamentoso, a dosagem foi ínfima.

Segui fazendo exames o dia todo para controlar os batimentos da Ana. Tudo estava muito bem, mas nada das contrações aparecerem. Por isso, à tarde e, depois, à noite, tomei mais comprimidos, aumentando a dosagem aos poucos, mas que também não fizeram efeito algum.

Sábado foi custoso para mim. Fiquei o dia inteiro fazendo exames, vendo que estava tudo bem conosco, mas que a indução não acontecia. Só pensava no quanto gostaria de estar em casa, descansando ao lado do Tiago, pois sabia que era a paz da minha casa, do meu conforto, o que estava me faltando para que algo progredisse. Eu estava dentro de um ambiente hospitalar, que, ainda que acolhedor e satisfatório, não me permitia relaxar. E, pra piorar, o Tiago não podia ainda estar comigo nesse momento tão importante pra nós – por causa da pandemia, ele só poderia estar presente quando eu, finalmente, entrasse em trabalho de parto.

De madrugada, já que não conseguia dormir (que jeito?!), resolvi andar pelos corredores do hospital. Chorava, chorava e chorava, sozinha com meu barrigão. Não via a hora de ter nossa filha nos braços, de estar ao lado do Tiago, vibrando com ele toda a emoção da chegada dela em nossas vidas. Conversamos pelo telefone. Oramos juntos… Jamais me esquecerei dessa noite.

Domingo – um dia de Spa

Cedinho, voltei para a ala onde fazia os exames. E, depois de horas de CTG, a Hebamme que estava de plantão no dia percebeu que eu estava bem triste e se ofereceu para uma conversa acolhedora, não de enfermeira para paciente, mas de mulher pra mulher. Ela foi uma pessoa muito sensível para com meus sentimentos, perguntou o que eu estava sentindo e me deixou contar tudo, no meu tempo, do meu jeito, entre milhões de lágrimas.

Eu disse a ela o quanto estava feliz por aquele momento tão único em minha vida, mas que jamais havia imaginado passar os últimos dias de gestação isolada no hospital. Expliquei como também estava satisfeita com toda a equipe hospitalar e a forma respeitável, até carinhosa, com que eu estava sendo tratada. Agradeci por poder confiar no trabalho deles, mas também expus o tamanho da minha ansiedade, do medo de que algo de ruim acontecesse com minha filha antes mesmo de ela nascer. E, especialmente, disse como estava sendo difícil para mim passar por tudo aquilo sem a presença do Tiago, embora entendesse que as medidas eram uma necessidade imposta pelo momento pandêmico, infelizmente.

Ela, então, repleta de alteridade, olhou nos meus olhos, pegou em minha mão, assegurou que tudo estava bem, que a Ana estava saudável e que o caso estava sendo monitorado meticulosamente. Disse também que para toda regra há sempre uma exceção e que, como o dia estava tranquilo e eu era a única paciente no setor das salas de parto, poderíamos tentar algo diferente: em vez de tomar mais medicamentos, eu chamaria o Tiago para passar o dia comigo e poderia desfrutar de um tempo relaxante na banheira, com direito a música e luz ambiente. Um verdadeiro dia de spa!

Imaginem então todas aquelas lágrimas de tristeza se transformando em lágrimas de alegria! Ai, meu Deus, que presente lindo eu estava ganhando! E que dia delicioso aquele… Não consigo nem descrever aqui.

O tempo ao lado do Tiago foi tão gostoso, que até comecei a sentir algumas contrações, ainda que fracas. Finalmente, havia conseguido relaxar um pouquinho para deixar meu corpo trabalhar.

No fim do dia, eu estava tão tranquila, que dormi muito bem à noite – inclusive, foi a última noite bem dormida desde que a Ana chegou! Hehehe! Juntei forças para o dia seguinte, pois minha bebezinha ainda não dava sinais de que sairia tão cedo.

Segunda-feira, dia de trabalho

Acordei muito feliz na segunda, completamente disposta para mais um dia de exames e tentativas. Voltei a tomar os medicamentos, e a médica sugeriu aumentar a dosagem ao longo do dia.

Entre um CTG e outro, eu caminhava, subia e descia escadas, tentava controlar a ansiedade densa que sentia sobre meus ombros. E passava o tempo conversando com o Tiago pelo telefone e por mensagens.

Conforme a tarde foi virando noite, senti dores mais fortes na região lombar. Estava ficando difícil até permanecer sentada sem me mexer muito quando fazia os exames para ouvir os batimentos cardíacos da Ana.

Depois de jantar, liguei para o Tiago mais uma vez e, enquanto brincávamos com algum assunto bobo para passar o tempo, ouvi um som como o de um estouro. E, de repente, tudo ficou ensopado.

“Ti! Acho que estourou a bolsa!”

“Lissa, puxa a cordinha, chama uma enfermeira!”

“Ai, verdade! Nossa, será que vai ser hoje? Ai, calma… Não vamos criar expectativas… Rs!”

Desligamos.

A dor na lombar foi aumentando exponencialmente depois daquele momento. Quando a enfermeira chegou ao quarto, eu precisei da ajuda dela para conseguir ir caminhando até o local onde fazia os exames. Estava difícil não verbalizar o tanto que estava doendo.

Comecei mais um CTG, mas era praticamente impossível ficar parada. Levantei e comecei a gritar de dor. A Hebamme me examinou, e eu ainda estava com 3 centímetros de dilatação, mas as dores iam ficando cada vez mais fortes e ritmadas; e meus berros, mais altos e intensos.

Muita raiva nessa hora

Estava finalmente acontecendo! A médica ligou, então, para o Tiago e disse para ele vir ao hospital.

Quando ele chegou, me viu fazendo movimentos desengonçados (eu só pensava que queria me mexer), aos berros a cada contração, e tentou, portanto, colocar em prática algumas das coisas que havíamos pensado em fazer juntos nesse momento: massagens relaxantes, palavras de incentivo, um tempo de qualidade juntos ao som de uma playlist cheia de brandura, criada pra chegada da Ana.

“ME DEIXA QUIETA, QUE EU NÃO QUERO NADA DISSO! SÓ QUERO QUE ESSA MENINA SAIA LOGO DAQUI!”, disse e pensava eu com toda a meiguice que uma mulher cheia de raiva na hora de parir pode exprimir! Hahaha!

Raiva era o que melhor definia o que eu estava sentindo naquele momento, tomada de dor. E me dava ainda mais raiva o fato de que, entre uma contração e outra, a dor não ia embora e nem amenizava, como me disseram que aconteceria.

Pouco tempo depois, eu já estava com 5 centímetros de dilatação, e pudemos entrar na sala de parto. Eu estava me sentindo totalmente inconsolável por não conseguir nenhum espacinho para respirar e juntar forças para a contração seguinte. Foi então que a Hebamme me ofereceu uma coisinha, que, digamos… foi o maior barato!

“Lissa, você quer experimentar usar gás do riso? Ele pode te ajudar a relaxar, mas pode ser que você se sinta meio enjoada também.”

“SIM!”

A graça da sua chegada

Com ajuda do Tiago, subi na maca e fiquei em uma posição meio de quatro, bem apoiada com os braços na parte superior da cama, para não correr o risco de perder o equilíbrio caso ficasse zonza. Comecei a inalar fundo aquele “óxido maravilhoso”, ou melhor dizendo, nitroso. E um sentimento de paz tomou conta dos meus pensamentos. Ah… Finalmente, alívio.

Eu estava tão relaxada, que tive que pedir para o Tiago me ajudar a lembrar de respirar fundo, pois essa era a orientação que a Hebamme havia nos dado. Conseguia ainda perceber bem as contrações chegando, sentia as dores, mas havia ficado bem mais fácil lidar com elas.

Perdi totalmente a noção do tempo de uma maneira muito engraçada: em alguns momentos, parecia estar em uma cena de ficção científica, quando, em meio a algum experimento maluco, tudo se passa beeem devagar, em câmera lenta. E só conseguia pensar: “Tiaaagooo, você teeem que experimentar esse negóciooo! É legal demaaaais! Hahahaaaa…”

Paralelamente, tudo acontecia rápido, pois parece que em questão de minutos ouvia a Hebamme dizer: “Lissa, você está com 8 centímetros já! Muito bom!”; “Ótimo, agora já são 9. Falta pouco!”; “10 centímetros, Lissa! Você logo vai começar a sentir vontade de fazer força!”

Dito e feito. De uma hora pra outra, toda a dor havia ido em bora, abrindo espaço para essa vontade incontrolável de pôr pra fora a minha bebê. A sensação era igual quando a gente tem vontade forte de fazer o número 2, mas está no meio de um lugar lotado e longe de qualquer banheiro! Hehehe!

Por estar sem dor, imaginei que essa seria a parte mais fácil do trabalho de parto. Mas, por mais força que eu fazia, nada da cabecinha da Ana aparecer. Ela estava olhando para cima, o que dificultava a passagem pelo canal. Nunca fiz tanta força na minha vida; nem sabia que era tão forte assim.

Mas depois de concentrar toda a energia do corpo para fazer força quando meu corpo sinalizava, ela nasceu.

Serena, de olhos bem abertos, liiinda e muito cabeluda. Nossa, que momento é esse o de olhar para a cara da sua filha pela primeira vez? Nem sei descrever… 🙂

“Bem-vinda, Ana! Eu sou sua mãe. Esse é seu pai. É muito bom ter você aqui com a gente”.

E na madrugada de 24 de novembro de 2020, às 2 horas e 21 minutos, depois de quatro dias de indução e quatro horas de trabalho ativo, chegava ao fim o parto deste relato, pra começar, então, um monte de novas histórias de vida.

Feliz vida, Ana. Eu te amo muito, minha filha.

2 comentários em “Relato de parto (sim! Virei mãe!)

  1. Que lindo relato! Me emocionei como naqueles dias, pensando no quanto queríamos poder estar aí pertinho pra esse momento tão lindo pra todos nós, mas sabemos que você nunca esteve só, DEUS sempre amparando e cuidando de vocês e trazendo o nosso mais lindo presente 😍. Obrigada pela nossa linda Ana!!! Que Deus continue abençoando essa linda e amada família ❤️

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  2. Querida Lissa!! Amei toda sua história, não preciso nem falar q me emocionei mais uma vez….bjos p vcs!! E um muito especial em minha sobrinha neta Ana❤🥰🥰

    Curtido por 1 pessoa

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